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  • Carlos Alberto Dória

Porco, o primo do homem

Embora domesticado há 5 mil anos na China, no Ocidente foi considerado um “primo” do homem; e foi durante o reinado dos reis católicos na Espanha que ele tornou-se expressão da abundância e de se viver conforme o cristão velho: cravava-se os dentes no presunto, fazendo asco ao mouro e ao judeu, como na comunhão de um bom cristão.

Veja-se a exaltação hiperbólica do porco no poema que retrata o festim de um casamento cristão:


Hubo seis cosas

en la boda de Antón:

cerdo, cochino,

guarro y lechón.

E se o presunto cru, feito uma múmia cristã, era, em suas finíssimas fatias, equiparado a hóstias, no Brasil foi o doce “toucinho do céu” que serviu para desentocar os vizinhos que o recusavam, denunciando-os como judeus enrustidos, segundo observou August de Saint-Hilaire.

Em síntese, o porco é um divisor de águas civilizacionais. Mesmo que sejamos laicos, ele exige a fé de que nada melhor encontraremos para comungar nosso espírito com a natureza. Sem o porco, o mundo perde a graça.


(Carlos Alberto Dória @cadoria )

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