Buscar
  • Carlos Alberto Dória

Cry for me Argentina

Coube ao amigo Pietro Sorba (@pietrosorba), critico gastronômico radicado em Buenos Aires, me fazer chegar a notícia de que o bodegón El Obrero, situado em La Boca fechou. Existia há quase 70 anos e tombou com um tiro certeiro de Covid no meio da testa.


Não que lá se almoçasse ou jantasse especialmente bem. Era normal, boas carnes; mas tenho a lembrança associada a um dos piores vinhos que já tomei – um Gascón, antes de conhecer os elegantes Escorihuela Gascón, cujo viognier é das melhores coisas que os argentinos fazem. Mas El Obrero tinha um clima inigualável. Lá se respirava um bafo de peronismo misturado ao futebolismo, como se estivéssemos nos dias gloriosos da Argentina operária; e um restaurante, para quem ainda não sabe, é mais o seu clima do que os fogões. Nos anos 80 se tornou moda, inclusive para turistas, apesar da advertência dos taxistas de que estava numa região soturna.


Já na Buenos Aires chique, em Palermo, fechou o Oviedo onde, como num ritual, sempre que ia a Buenos Aires, comia um “revuelto de centolla”. Numa estante, ao lado da porta, estavam à mostra os vários livros de Escoffier, espécie de “você sabe com quem está falando ?” culinário. O covid não conhece a luta de classes, e abate indiferentemente suas vítimas. Votei no Oviedo algumas vezes para o 50º Best.


Não é só que Buenos Aires tenha ficado mais pobre, mas que em meio a esse empobrecimento vem justamente perdendo seus ícones. A gastronomia bonaerense vai apagando suas cores, sua cultura e os operários, reduzindo-os a mera força de trabalho. A vida segue, é certo, mas há um claro ar de cortejo fúnebre nessa caminhada.


Carlos Alberto Dória

@cadoria

54 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Natal