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  • Carlos Alberto Dória

A história da paçoca

Gostar de culinária – diferente de gostar de comer - é também gostar de resolver uns quebra-cabeças. August de Saint-Hilaire, cientista francês que apreciava campear pelos sertões da Paulistânia, fez um curioso registro sobre a canjica. Notou que os brasileiros do interior gostavam de comê-la sem qualquer tempero, ao passo que os estrangeiros gostavam de acrescentar açúcar e leite. Isso depois de observar que os europeus achavam as compotas de doces de Minas Gerais tão açucaradas que mal distinguiam as frutas nelas.


Exagero ou não, o fato é que quem enquadrou as frutas no açúcar foram os brancos europeus. O “doce” dos indígenas não vinha do açúcar. O açúcar servia para compotas e marmeladas serem mais duráveis, mas não no imediatismo da canjica. E o mistério mesmo era a paçoca de amendoim.


Nem totalmente doce nem salgada, estacionada a meio caminho da nossa sensibilidade que tende mais para um lado ou para o outro, a paçoca de amendoim não se enquadra em nenhuma classe de alimentos. Não é sobremesa, enão é equivalente às paçocas salgadas de carnes. É um produto parado na transição.


Socados no pilão dois produtos indígenas (amendoim e farinha de milho) e dois produtos dos costumes do reino (açúcar e sal), em proporções livres, era como se a miscigenação se desse à força, como foi a submissão do índio. O pilão era o resumo do encontro de culturas. O pilão amassa a história e a torna coisa.


Até hoje o pilar é gesto corrente, como se a paçoca nos esperasse decidir de uma vez por todas se ela se alinha aos doces...ou salgados.


(Carlos Alberto Dória - @cadoria )

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