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  • Carlos Alberto Dória

O caipira

O caipira é um excluído. Coisa de que me dei conta por volta dos 13 anos, ao mudar do interior e passar a estudar num colégio paulistano de elite. Tive que reaprender a pronunciar o “r” para me pôr a salvo do que parecia ridículo aos colegas. E o filme “If...” (Lindsay Anderson, 1968), hoje um cult, me mostrou como o deslize num simples detalhe de pronuncia era suficiente para tornar a vida de um menino um inferno.

O estigma de “caipira” foi, no século XX, motivo de infinitas piadas urbanas. Os filmes de Mazzaropi, ou “A marvada carne” (André Klotzel, 1985), mostram como o caipira se modernizou, deixando sua vida para trás. Só os mineiros, graças ao apoio oficial, fizeram da caipiridade um modo de se apresentar ao país pelas antigas tradições que os demais estados iam renegando. Quer dizer, uma certa nostalgia virou sua marca, em contraste com a modernidade “futurista” da cozinha da Amazônia cujas plantas são ainda desconhecidas, e a cozinha original parece ter mais futuro moderno.

Ao caipira falta uma certa psicanálise. Remexer fundo na alma, colocar-se à luz do dia, assumir o que lhe pareça diverso e ainda cativante, como modo de ser “caipira do futuro na reluzente galáxia”. O futuro do caipira não foi mastigado pelo tempo: está aqui e agora, a desafiar os dentes da história. É só tomarmos consciência para onde queremos ir com a tralha toda de nossas vidas.


(Carlos Alberto Dória - @cadoria )

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