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  • Carlos Alberto Dória

A abóbora e o saci-pererê

Tem gente que prefere o Halloween. Nós somos da turma do saci-pererê, e ambos disputam o mesmo dia. Como tantas disputas na sociedade brasileira, há só um lado certo. Coma sua abóbora de Halloween no dia que bem entender, mas deixe o dia do saci-pererê em paz.


Ele, o Curupira, a Yara, o boi-tatá e tantos outros que povoaram o imaginário brasileiro, e a infância de muitos de nós merece continuar a viver na alma do brasileiro, como um plano da vida fantástica que às vezes tanto nos faz falta. Preserve o que nos fala de perto para não ficarmos sozinhos.


Não sou dos que gosta do folclore incondicionalmente, como um passadísmo nostálgico. Mas quando leio Mario de Andrade ou ouço Villa-Lobos reconheço no folclore uma fonte onde a inteligência pode beber a qualquer tempo, um alimento da modernidade também.


O curupira é uma imagem extraordinária de esperteza. Vai para a frente e deixa rastros de quem andou para trás. Nunca será alcançado ao se acreditar nele mesmo. É uma metáfora da cultura que dá uma lição na resistência ao progresso. Às vezes precisamos ser um pouco curupiras para sair do lugar e ir na direção que queremos. E se chegamos onde chegamos é porque soubemos driblar as resistências.


Há muita sabedoria em registros folclóricos. Ideias que se fixaram justamente porque não pertencem à logica do cotidiano. Um jaboti em cima de uma árvore nos obriga a pensar que alguém o colocou lá, já que não é da sua natureza subir em árvores.


Deixar-se levar pelos desafios à razão, pelo raciocínio incomum, talvez seja a grande virtude do folclore. O motivo sempre presente para preserva-lo como aquilo que faz do brasileiro o que é. Ou luta para ser. Do Halloween queremos só comer a abóbora.


Carlos Alberto Dória

@cadoria

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